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[6:02 PM]
FIM
Todo fim é como o início. Termina como começa. Feio e sem sentido. Monossilábico. Com um espaço vazio no meio. Com um simples 'Ta bom'.
Desconhecidos não são importantes. É verdade.
Conhecidos sim. Pois eles transmitem sensações.
Quem sou eu para julgar alguém? Quem sou eu? O que sou eu?
Mundinho construído por escolhas.
E somos todos, na verdade, a soma total de nossas escolhas.
O tempo não existe.
Saco de papel
Dor. Sempre essa filha da puta. Sempre ela cobrindo o mundo como uma bomba atômica, arrasando tudo, matando tudo.
Sempre longe, sempre sozinha. Sempre essas lágrimas caindo e entrando na minha gola. Amor demais. Eu amo demais, gente demais. Eu erro demais. Pensei que era um pássaro mas era só um saco de papel. Dor, dor, dor, ela me tem o tempo todo, me corrói o tempo todo. O tempo todo é lento. Sempre lento.
Não, eu nunca vou aprender. As mãos dela tremem demais e eu não consigo segurar e eu queria segurar. Queria a tua mão. Só a tua mão. A tua mão e os teus olhos. Me olha nos olhos. Me dá a mão. Me dá a mão e me olha nos olhos. Me dá a mão e me olha nos olhos e pára de tremer. Te olha no espelho, te olha nos olhos e segura a tua mão.
Fiquei louco de novo hoje. Chorei na frente de todo mundo. Chorei tão baixinho, tão dolorido, gani tão baixinho que ninguém teve coragem de chegar perto. Chorei com os teus olhos na minha cabeça. Amor demais.
Não adianta esconder dos outros quando sabe o que acontece dentro da gente. Não adianta não me olhar pra tentar não ver. Não adianta colocar a sujeira pra baixo do tapete. Alguém sempre acaba achando e mandando limpar tudo, onde já se viu sujeira debaixo do tapete? Limpa a tua sujeira. Limpa as tuas feridas. Limpa a tua alma e a minha junto.
Dor. Sempre essa merda de dor. Sempre. Não agüento mais. Acho que chega.
Quero ser podre. Quero apodrecer vivo. Podridão é inerente. Inevitável. Todo mundo tenta esconder a podridão com banhos e sabonetes e perfumes e clareamento de dentes. Dentes. Dentes podres, todo mundo sorri com dentes branquinhos mas são podres por dentro. Quanto mais brancos, mais podres. Quanto mais artificiais, mas ocas. Pessoas sem dentes são legais.
Quero ser puta e vender minhas carnes. Corpos são montes de carne, sacos de pele e ossos cheios de bichinhos que a gente nem vê e que passam o dia caminhando e nos comendo. Corpos só pesam. Almas são livres e hippies. Leves e de vestidos esvoaçantes. Não quero mais meu corpo. Não quero mais ter carnes. Não quero mais ter corpo.
Queria que não gostassem de mim. Queria que me jogassem tomates e repolhos e que eu fosse enforcado em praça pública. Queria ser maldito e sujo e poder ser insano em paz. Poder deixar meus cabelos desgrenharem e ficarem iguais aos da Josefina, a primeira boneca da minha irmã que tinha um black power.
Queria ter virado uma esquina diferente e não saber o que é isso que você me deu, essa pedrinha que brilha muito. Voltar no tempo, queria voltar no tempo. Pra que começar se não vai terminar? Queria voltar no tempo.
Jesus não salva. Jesus não vai voltar. Jesus tem um programa na tv. Jesus era negro. Jesus escreveu um cheque em branco. Jesus está invisível no icq. Jesus é um gênio surdo, mudo e analfabeto.
Não tem sol. É frio. É duro, é amargo. Olha e não quer ver. Não quer ver mesmo. Nem ouvir, nem explicar, nem nada. Não quer. Não pode. Não vai.
Queria não saber. Queria não conhecer. Burro, queria ser burro. Queria ser burro e são. São. Queria ser são. Queria ser são e burro e não chorar. Chorar é coisa de mariquinhas. Eu sou mariquinhas. Chorão.
Queria acordar e te contar meu sonho e ouvir o teu. Queria chorar muito no teu ombro. Queria poder te contar tudo que caminha dentro da minha cabeça.
Não quer ouvir, não quer ver, não quer explicar. Não vai, não pode, não quer.
Eu não vou continuar tentando. Não vou. Desisti.
Queria ser ontem. Semana passada. Mês passado. Hoje não. Hoje nunca. Mas ontem passou. E amanhã ainda não chegou.
Um dia chega. Agora chega.
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