Um dia acaba ::  

Porque tudo que nasce morre um dia, porque tudo o que nasce deformado tem vida curta. Porque outrora é um vazio chamado agora. Porque decadência e elegância são duas putas com esperma no meio das coxas. Porque nada tem meio. Porque gemer é bem melhor do que recitar. Porque aqui as palavras inacabadas tem fim. Porque tudo acaba. Um dia acaba.
(Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera provocação).



segunda-feira, julho 12, 2004


[4:24 PM]

::: Reescrevendo Marie


Marie era uma menina como outra qualquer, pele branca, cabelos bem curtos e desgrenhados, um sutil piercing de argola saindo da narina esquerda, olhos claros, um ideograma japonês que significava liberdade tatuado na nuca, pequenininho.
Adorava suas saias jeans até o joelho, o tênis sem cadarço de alguma marca famosa que não cabe aqui ser mencionada. Andava sempre com uma mochila cruzando as costas e os seios, usava blusas com estampas divertidas, mensagens subliminares e/ou blusas de uma única cor.

Marie, menina tímida, não se importava de ficar sozinha ou calada em algum canto reservado do pátio naquela instituição de renome, situada em algum bairro nobre numa cidade mineira com um horizonte belo... Marie nasceu em berço de ouro, não precisava trabalhar, não precisava pedir dinheiro para os pais, conseguia sobreviver somente com a pomposa mesada que recebia dos parentes mais distantes, para ser mais específico, que recebia dos avós e dos padrinhos. Mas Marie não se importava com dinheiro, gastava o que podia comprando cds graváveis para copiar suas 'emepetrês' e em livros antigos com páginas faltando ou livros que tinham alguns leves defeitos na capa, alguns ela realmente lia, outros ela simplesmente guardava na escrivaninha-estante improvisada por ela mesma em seu quarto, ou então dava de presente para alguém com uma singela dedicatória em uma data especial. Se existia uma coisa que Marie adorava, essa coisa era fazer dedicatórias, mesmo sabendo que sua letra era estranhamente torta, ela adorava escrever... Dedicatórias... Muitas vezes, os livros não eram tão bons, mas sempre eram lidos por alguém... Somente por causa... Da dedicatória.

Marie tinha dom para escrever, escrevia espontaneamente, conseguia chocar ou persuadir qualquer um, por mais culto ou estúpido que outrem fosse. Ela também gostava de citações em livros, até pensou um dia, quando estava deitada em sua cama em um quarto escuro, ouvindo musica melancólica, escrever um livro chamado: 'Citações'. Onde ela simplesmente escreveria histórias divertidas com citações de personagens gregos antigos, não seria um livro ruim, talvez não tivesse boas vendagens, mas Marie não se importava em ser bem aceita. Gostava do que escrevia. E para ela isso bastava.

Também não tinha muitos namorados, preferia ficar sozinha ao ter que compartilhar/perder seu tempo e espaço com pessoas que estavam interessadas em passar a mão pelas curvas bonitas do seu corpo magro.

Vícios? Tinha alguns. Fumava cigarros com alto teor de alcatrão e nicotina esporadicamente, bebia vodka as quintas-feiras no bar que ficava próximo à faculdade que ela também freqüentava esporadicamente, faculdade de jornalismo, Marie não sabia se esse era um curso promissor, mas gostava dele assim mesmo, apesar da pouca paciência para ficar dentro da sala de aula. Gostava de assistir a jogos de futebol, ouvir música triste e escrever poesias para ela mesma.

Marie achava lindo quando alguém pronunciava seu nome corretamente, mesmo não se importando se fosse meio aportuguesado, mas também não se importava se a chamassem de Maria ou alguma coisa parecida com isso.

Falava baixinho, tinha uma voz doce, porém, Marie sabia, que apesar de todas essas coisas, apesar de ser uma menininha interessante, simpática e pouco voluntariosa para com as coisas, ela tinha a certeza de que era somente mais um corpo no meio da multidão. E por isso. Marie andava por aí... Sem preocupações, cabeça baixa, corpo ereto, e um sutil sorriso com a metade da boca estampado no lindo rosto de traços finos, traços que pertenciam a uma única menina sem sobrenome chamada Marie...



 


Postado por Sr. R. at 4:24 PM