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[5:04 AM]
Tons menores
Eu pensei sobre isso o dia todo. Seria óbvio não ir até lá. Mas por aquelas fraquezas que deixam você confuso eu hesitei. Não se hesita nessas situações, o risco é muito grande. Pois bem, fui.
O caminho era o de sempre, tudo do mesmo jeito, a rua de pedras tortas, os jornais molhados, borrados, na frente das portas dos vizinhos descuidados. Eu não sabia se a areia do chão estava com a cara da chuva fraca que caia ou se refletia meu rosto choroso, procurando abraço. Saudoso abraço. Mesmo só passando um dia, cada hora cumpriu impiedosamente sua tarefa de me fazer sentir sua falta. Tinha certeza que ela não estaria. Aliás, essa era a única certeza que eu tinha: ela não estava mais lá. Por um lado foi bom: fiquei do lado de fora imaginando lá dentro. Obviamente imaginei do jeito que me era conveniente, e a única conveniência na hora era pensar que tudo fosse um pesadelo. Pensei nela abrindo o armário e escolhendo a roupa que mais gostava. Nela se aprontando rápido pra não me deixar esperando. Nela chegando linda, me dando um beijo nos lábios.
A vizinha descuidada foi apanhar o jornal por causa da chuva. Ela me viu ali no meio da rua, sentado sob a garoa. Acho que ela se comoveu um pouco com a situação, mas não me dirigiu uma só palavra. Ouvi aquela simpática senhora reclamar, dizendo que o jornaleiro não cuidava com a entrega, o jornal não vinha mais dentro de um plástico e ficava exposto à chuva. Assim como eu. Acontece que eu não sou um jornal e cada lágrima que eu derramava fazia o jornal borrado daquela senhora parecer absolutamente banal. Nessa hora eu desejei do fundo da alma que tudo o que eu tivesse pra me preocupar fosse um jornal ilegível. Ilusão. Minhas notícias estavam mais nítidas do que nunca. Minha manchete, sarcasticamente, dizia: Ela não volta mais. Levantei do chão molhado e toquei a companhia da simpática senhora.
- Olá, será que a senhora podia me fazer uma favor?
- Claro meu querido. Mas saia da chuva, você pode ficar doente.
- Não tem problema não. É rápido. Sabe a menina que mora aqui do lado? Queria que a senhora desse um recado pra ela quando ela voltar.
- Olha, eu sinto muito, mas....Você era amigo dela? Você não soube? Ela...
- Eu soube sim. Me desculpe...eu só queria fingir que é mentira. Só um pouquinho. Desculpe.
Voltei por aquele caminho de pedras tortas, com a areia agora encharcada, torcendo pra que ela viesse correndo, pedindo desculpas por estar atrasada, com aquela roupa linda, com aquele abraço, com aquele beijo, com aquele pouco de eu. Acontece que a simpática senhora disse que ela não estava mais lá. Aliás, essa era a única certeza que eu não queria ter.
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