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[5:10 PM]
Marcèlle 2º dia de 7
Depois de uma reconfortante noite de sono, a roupa do dia seguinte ainda estava no corpo. O gosto seco saindo da boca. Parecia que alguém sugado todo o seu estoque de saliva. Sentia a língua estranha, sentia uma leve dor de cabeça e tinha vontade de vomitar. Podíamos dizer que eram os efeitos da inconseqüência da noite anterior, mas havia bebido um único copo de vodka com suco de pêssego e tinha dormido cedo. O rádio relógio sobre a cômoda marcava insistentemente sete horas da manhã em ponto, sem segundos e sem minutos.
Criou coragem e levantou-se da cama e foi caminhando até o banheiro se apoiando nas paredes de pátina do seu quarto. Andando meio devagar, pois não queria levar um tombo, pois sabia que se caísse ali simplesmente não conseguiria se levantar. O corpo cansado demais. Nada como um banho mormo para revigorar o corpo, e com esse pensamento Marcèlle adentrou-se no boxe fume e deixou a água do potente chuveiro massagear-lhe as costas. Lavou os cabelos com xampu de maça, esfregou o corpo com algum sabonete neutro que estava na saboneteira enquanto cantarolava alguma música francesa antiga. (Música que esse estúpido escrevente com certeza desconhece).
Após sair do banho sentindo-se bem melhor, já enrolada no roupão de banho rosa de algodão. Desceu as escadas até a cozinha e pegou um cacho de uvas para o café da manhã. Enquanto andava com o cacho de uvas pela casa, ora colocando uma na boca, viu o gato cinza de seu pai se coçando na quina da escada. Não deu muita importância, não gostava de gatos. Pegou o jornal do dia para ler e nada lhe interessou muito, correu os olhos em alguns quadrinhos de humor momentaneamente lhe interessaram e subiu para trocar sua roupa.
Calor, verão em Belo Horizonte. Decidiu colocar um vestido solto e uma sandália baixa, sem salto. Olhou-se no espelho e se achou sexy. E isso era o que realmente importava. Enquanto isso decidiu sair para comprar algo para fazer o almoço, nada muito pesado, uma leve salada com algum suco natural. Marcèlle não almoçava em dias comuns, mas hoje estava com vontade de cozinhar, e o almoço foi um simples pretexto. Saiu, comprou folhas verdes, rabanete, um vidro de palmito em conserva, azeitonas verdes, e algumas batatas, levou algumas laranjas para fazer o seu suco, já que Marcèlle odiava refrigerantes, a não ser que eles viessem misturados com alguma coisa altamente alcoólica, mas isso não vem ao caso agora.
Chegando em casa preparou o seu almoço, que não será detalhadamente descrito aqui para que o texto não fique chato e monótono.
Almoçando decidiu ligar o rádio para ver quais eram as bandas do momento, músicas, letras e melodias. Era apaixonada por música, adorava ouvir e falar sobre música, adorava sentir cheiro de música pelo seu quarto, adorava colocar um cd quando chegava em casa depois de uma balada, cada melodia dizia o que Marcèlle sentia naquele momento.
Terminado o almoço resolveu ligar para as amigas para conversar futilidades. Marcèlle não confia em mulheres, por isso, nada de se abrir e falar coisas para suas amigas, amigas não são nada mais do que boas companhias para momentos de distração/diversão. Falou que queria sair e combinaram de sair tarde da noite, quando a noite de Beagá fica boa, lá pelas onze.
Até a chegada da noite Marcèlle leu algumas poesias de um livro qualquer de Charles Baudelaire. Cochilou quando a noite caiu e acordou novamente quando o ?cuco? da sala apitou nove da noite. Levantou meio sonolenta-cambaleante e resolveu se aprontar.
Tomou um banho gelado para despertar. Adorava sentir a água caindo pelo corpo. Preferia tomar banho na sua grande e redonda banheira de hidromassagem, mas hoje não tinha tempo para relaxar. Enrolou-se na sua toalha de algodão e saiu com os cabelos molhados, ainda pingando gotas de água sobre chão. Com esse calor daqui, já já a água evapora, não se preocupou muito com isso. Passou intermináveis minutos frente ao armaria escolhendo o que ia vestir para a sua noite. Por mais que Marcèlle seja uma mulher diferente, ela ainda é mulher, e por isso o tempo que ela gasta para se aprontar é igual ao que qualquer outra mulher normal gastaria. Demorou, mas ficou linda.
Onze e quinze e o telefone toca, Marcèlle, assim a gente vai sair só amanhã, será que dá pra ?apertar o passo?? Marcèlle pegou o maço de cigarros, o batom, e colocou-os na bolsa. Propositalmente Marcèlle esqueceu o celular em cima da cômoda, não queria ser incomodada por ninguém.
Marcèlle passou na casa das amigas meia hora depois do combinado (onze e meia), trocaram selinhos e partiram rumo deliciosa e fresca noite que as aguardava.
- Pra onde vamos?
- Não sei, tem uma boate no São Pedro que dizem ser boa.
- Qual o nome?
- Eles chamam o lugar de inferninho da vovó Mafalda.
Nesse momento Marcèlle fez beicinho, mas resolveu ver do que se tratava. Nada de julgar lugares por causa de seus nomes estranhos.
Enquanto se dirigia para o inferninho da vovó Mafalda Marcèlle entrou em ruas desconhecidas, becos sem saída e depois de vinte e cinco minutos na direção do seu carro um ponto zero, chegaram ao famoso inferninho.
A primeira impressão foi boa. Gente bonita circulando por lá. A aparência da boate era agradável e o melhor de tudo, tinham motoristas para estacionar o carro. Saíram do carro apressadamente, pegaram suas fichas de consumação mínima na porta do inferno e tinham que escolher uma pulseira para colocar no braço, vermelha, comprometida, amarela, somente afim de curtir e verde, completamente disponível. Marcèlle pegou uma de cada cor para ficar mais fashion.
Entraram, procuraram uma mesa e deram sorte, um casal saia de uma delas no segundo piso do inferno. As meninas sentaram, menos Marcèlle que deixou sua bolsa em cima da mesa e foi para a pista dançar freneticamente ao som de alguma batida meio rouca de um DJ alemão. Até que em certo momento daquela batida louca que parecia ser insistentemente a mesma o tempo todo, ela ouviu um sussurro em seu ouvido: ?Latere semper patere, quod latuit diu?. Não entendeu merda nenhuma, mas também não se preocupou em perguntar do que se tratava, já que rapazinho, aparentemente mais jovem do que ela, tinha um lindo olhar azul de olhos rasgadinhos, olhos que pareciam duas vírgulas quando ele sorria.
E assim acabou o segundo dia de Marcèlle, já que já eram meia-noite e uma da madrugada e o terceiro dia estava começando agora...
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