Um dia acaba ::  

Porque tudo que nasce morre um dia, porque tudo o que nasce deformado tem vida curta. Porque outrora é um vazio chamado agora. Porque decadência e elegância são duas putas com esperma no meio das coxas. Porque nada tem meio. Porque gemer é bem melhor do que recitar. Porque aqui as palavras inacabadas tem fim. Porque tudo acaba. Um dia acaba.
(Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera provocação).



quinta-feira, agosto 26, 2004


[2:55 PM]

Marcèlle 3º dia de 7

Passos desconexos na pista de dança, mão boba pra lá, mão boba pra cá. Dançava habilmente com o menino de olhos rasgadinhos, o menino que falava latim e que ofegava impiedosamente na nuca de Marcèlle. Que a essa altura da festa já estava suada e com os cabelos desgrenhados. Em certo momento, o menino de olhos claros soltou mais uma frase: ?Naevos nostros et cicatrices amamus?.

- Olha aqui, não leva a mal não, tu é bonito, dança bem, to gostando de estar aqui com você, mas será que dá pra falar alguma coisa que eu entenda? Realmente ficar falando o que eu não entendo não me enche de tesão e muito menos vai me levar pra sua cama.
- Opa, uma abordagem direta. Gosto de pessoas diretas. Sem rodeios e coisas do tipo. Estamos dançando aqui a um bom tempo e até agora você não me disse o seu nome.
- Eu não disse? Como assim? Acho que foi você quem não perguntou. Mas me chamo Marcèlle.
- Muito prazer Marcèlle, me chamo Ricardo.

Marcèlle gostava de nomes que começavam com ?R?. Era apaixonada por nomes. Em sua agenda tinha uma lista infindável de nomes, dos mais bizarros aos mais poeticamente perfeitos. Um estranho gosto, diriam alguns. Era como um cacoete, só que ao invés de tiques, ela escrevia nomes na sua agenda. Mas Ricardo não precisava saber disso, seria meio patético dizer: Ahhh, eu gosto de nomes que começam com a letra ?R?, melhor dizendo, seria deploravelmente patético.

E durante as apresentações, Ricardo deu um selinho em Marcèlle, que não ficou satisfeita com o pequeno ?abuso? do rapaz, puxando-o em seguida, jogando-o contra seu corpo e lascando-lhe um beijo voraz, chupando língua e saliva com vontade. Marcèlle não gostava de frescuras, preferia pessoas diretas, e o rapazinho não era tão direto assim, talvez por causa da pouca idade, pelo menos aparentava ter pouca idade, não mais que 20 anos, enquanto Marcèlle no auge dos seus muito bem vividos 23 anos sabia muito bem o que queria e não fazia rodeios para chegar onde queria.

Nesse instante Marcèlle lembrou-se das amigas que estavam sentadas na mesa e resolveu ver como elas estavam.

- Ricardo me espera aqui que eu vou ali conversar com as minhas amigas.
- E será que eu te vejo hoje ainda?
- Mas é claro, me espera no bar daqui a uns 40 minutos que eu estarei lá.

Olhou para trás, deu uma piscadinha maliciosa com a língua encostada no lábio superior esquerdo e saiu para encontrar suas companheiras.

Chegando à mesa, Marcèlle deu de cara com suas amigas sendo praticamente fodidas por mãos desconhecidas na mesa, dois rapazes faziam companhia para as amigas, e estavam com as mãos por debaixo de seus vestidos enquanto as beijavam com vontade.

- Desculpem-me pela intromissão, mas só estou pegando a minha bolsa. Preciso ir ao banheiro retocar a minha maquiagem.
- Marcèlle, não se esqueça da gente aqui não, por favor, não vá embora sem nos avisar.
- Não se preocupem moças, viemos juntas e vamos embora juntas, a menos que vocês não queiram.

E outro sorriso malicioso foi solto no ar enquanto virava as costas e seguia em direção ao toalete.

Suor, cabelos desgrenhados, maquiagem borrada, olhos de panda, não estava feia, muito pelo contrário, estava linda, com um ar meio blasé meio esnobe Marcèlle retirou o batom de cor clara da bolsa e passou nos lábios, tirou o excesso com um papel toalha e aproveitou para retirar o excesso da maquiagem dos olhos. Uma mulher que saia do banheiro passou a mão nas coxas de Marcèlle, o que não a assustou, mas não esperava por aquilo. Não disse nada, fechou a cara e fingiu que nada tinha visto.

40 minutos depois, Marcèlle no bar pedindo o de sempre, vodca com alguma coisa misturada, leu o menu e pediu uma batida qualquer.

Cinco minutos depois Ricardo reaparece no local.

- Você está atrasado mocinho, não é nada elegante deixar uma dama sozinha em um lugar como este, cheio de abutres (machos e fêmeas) rondando pra lá e pra cá atrás da refeição da noite.
- Me desculpe mocinha, não queria te fazer esperar. Mas sabe como é, relógios nunca estão no mesmo horário. Sempre atrasados ou adiantados alguns minutos.

Marcèlle não estava preocupada com explicações, falou por falar. Como uma mulher qualquer.

Conversas, assuntos bobos, alguns sorrisos amarelos, cigarros, vodca, beijos, língua, mãos, desejo. A madrugada perdurou e tarde da noite Marcèlle já não agüentava mais ficar de pé, o salto a estava matando. Disse a Ricardo que precisava ir.

- Mas já? (o rapazinho pareceu assustado)
- Como assim já meu bem? Já são 05:37 da manhã. Hora de uma mocinha como eu estar na cama.
- Eu te ponho na cama, te faço cafuné e durmo abraçado com você.
- Não meu bem, hoje não, eu te dou o meu telefone e a gente combina de sair outro dia, mas hoje realmente não estou a fim de ir para cama com você.
- Ricardo ficou meio chateado com a resposta da moça, mas aceitou o seu telefone.
- Não é que seja você, quando eu falei você estava me referindo a qualquer homem que tivesse feito essa proposta.
A situação melhorou um pouco, Ricardo parecia ter ficado feliz ao ouvir aquilo.
- Mas eu posso te ligar mesmo?
- Claro, é por isso que estou te dando o meu telefone, pra você me ligar, algum dia, dia nenhum, você escolhe.
- Pode ter certeza de que vou te procurar.
E a despedida foi longa, beijos, mãos, desejo...

Após a despedida Marcèlle foi atrás das amigas, que estavam na mesma mesa,sentadas e suadas, devem ter ido dançar pensou Marcèlle, com os mesmos caras, agora com um ar meio enjoado/enojado. Pareciam alcoolizadas com a conversa dos rapazes.

- Estou indo embora, alguém me acompanha?
- Claro, estou indo com você.
- Eu também.
Levantaram-se rapidamente e foram saindo, mal-mal se despediram dos rapazes. Que não sentiam mais nenhum tipo de desejo pelas meninas, pois haviam feito uma festinha louca no banheiro feminino. Talvez por isso as amigas de Marcèlle estivessem cabisbaixas, com um olhar meio envergonhado. Mas não estava a fim de conversar sobre isso, pois tinha acabado de ter uma noite agradável, tinha conhecido um cara legal, tinha bebido sua bebida qualquer misturada com vodca e riu, sorriu, cantou, dançou se divertiu.

Quando estavam saindo Marcèlle deu uma olhada pelo local, travestis rebolando na pista de dança, seios a mostra nos cantos do inferno, caralhos eretos e pulsantes em mãos hábeis, e olhando pra tudo isso Marcèlle saiu do inferninho de vovó Mafalda e seguiu para o seu carro, para sua casa.
Chegou em casa com o dia amanhecendo. É bonito ver o nascer do sol em Belo Horizonte. Gostava de ficar perdida, olhando pro horizonte, vendo fachos amarelo reluzentes quase alaranjados saindo por detrás dos prédios. E com esse lindo dia Marcèlle abriu a porta de casa, quase adormecendo, tirou o salto, tirou o salto e adormeceu com o vestido de festa. Nessa noite, Marcèlle dormiu de rímel e acordou de sombra...



 


Postado por Sr. R. at 2:55 PM