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[2:54 PM]
Marcèlle 4º dia de 7
Acorda borrada, sombra azulada nas pálpebras. Tudo por culpa do telefone que tocava insistentemente. Atendeu com a voz sonolenta, quase sussurrada.
- Alô.
- Alô, Marcèlle?
- Sim, quem é?
- O Ricardo.
- Ricardo? Mas que Ricardo?
- Você se esquece das pessoas assim? O Ricardo de ontem? O da boate.
- Ahhh, o Ricardo do inferno.
(Risadinhas do outro lado do telefone).
- Sim, esse mesmo.
- Poxa, eu esperava que você fosse me ligar, mas justo agora? Podia ser mais tarde não?
- Que horas você pensa que são mocinha?
(Marcèlle olhou para o relógio e viu que tinha dormido prolongadas 18 horas. Só não conseguia entender porque ainda estava com tanto sono).
- Olha Ricardo, me dá o seu telefone, eu vou terminar de acordar aqui e depois de ter feito isso eu te ligo, pode ser?
- Claro.
(Anotou o telefone em um guardanapo que estava sobre o criado-mudo e desligou o ?ring-ring?).
Marcèlle gostava de telefones, mas odiava ser acordada. O mau humor era inevitável nessas horas. Mas ela poderia fingir estar sorrindo, as pessoas, mesmo que ao telefone, percebem que você está sorrindo. Ser simpático não é nenhum dom, pode-se muito bem fantasiar uma carinha risonha.
Exercício matinal:
Levantar o peso do próprio corpo cansado da cama, caminhar escorada na parede (step by step), subir os intermináveis degraus de sua escada, mais caminhada escorada na parede (step by step), abrir os olhos e se assustar com a claridade das seis da tarde. Nada como uma massagem ?chuveiral? depois de tanto exercício. Água quente. Marcèlle adorava o quando o banheiro ficava enfumaçado. Adorava escrever no espelho alguma coisa.
18 horas de sono e o peso nos ombros ainda estava lá. O corpo doía. Mas tem coisas que não se pode entender. E Marcèlle não fazia questão de entender o que se passava.
Café da manhã:
Dois copos de Coca-Cola e um cigarro de filtro amarelo.
Marcèlle quase esqueceu de ligar para o tal Ricardo, se não fosse o papelzinho com o telefone em cima do criado-mudo jamais se lembraria do telefonema que a despertara a 2 horas atrás. Resolveu ligar para o tal moço às 2 da manhã, resolveu ligar para conversar um pouco, já que o verbo sair estava literalmente riscado dos planos de Marcèlle para o restante do dia.
Túuu... túuuu... túuuu
- Alô!
- Por favor, o Ricardo está?
- É ele.
- Aqui é a Marcèlle?
- Marcèlle? Mas que Marcèlle?
Uma pessoa com senso de humor, Marcèlle gostava de pessoas com senso de humor.
- A Marcèlle da noite passada.
- Ahhh sim... A Marcèlle. Olá Marcèlle, como vai?
- Vou bem senhor Ricardo, melhor agora que os olhos estão abertos.
- Pois é, pensei que você não fosse ligar.
- A verdade é que eu realmente pensei em não te ligar, mas sabe como é, ossos do ofício.
- Ahhh, então quer dizer que a senhorita está dando uma de difícil.
- É mais ou menos isso.
- Que bom.
Nesse instante Marcèlle pegou o Celular e saiu de casa, foi para a calçada para respirar um pouco do ar da cidade grande.
Dostoievski pode esperar *
- Você estava dormindo?
- Não, não... Onde você tá?- Na rua. Vem pra cá e vamos fazer alguma coisa. (nesse momento o plano de ficar em casa tinha acabado de ir para o brejo).- Mas fazer o quê?
Porra. Como assim, fazer o quê?
- Sei lá. O que você tá fazendo em casa?- Lendo.- Olhaí, podemos ler.
Ele riu. Ufa. Pelo menos não estava dormindo, é o que as pessoas costumam fazer a essa hora.
- Não sei, Marcèlle... Estou aqui lendo Dostoievski e...
- Ah, pára! O Dostoievski pode esperar, eu não. Vem pra cá.
Não tinha como recusar. Às vezes eu tenho muito orgulho das minhas frases. Acabamos bebendo e conversando em um boteco qualquer, mas era óbvio que alguma coisa ia acontecer ali. Tensão sexual, eu adoro isso. Você sabe que a pessoa quer, você quer, mas vocês insistem em falar sobre o primeiro disco do Chet Baker.
O dono do boteco nos expulsou pra lavar o chão com suas botas sete-léguas e decidimos ir para 'outro lugar'. Rodamos, rodamos, tudo fechado. Província é foda. Paramos em uma rua, fui trocar a música do cd e ele me atacou. Huh-huh, great. Já cansei de atacar, faço isso desde os 13 anos, está na hora dos homens se redimirem comigo. Começamos bem.
Disse meu nome e encheu minha boca de porra. Mas não era qualquer porra, daquelas que têm gosto de cola tenaz com clorofina e farinha. A porra dele era doce. Doce mesmo, de verdade, gosto bom. Até me deixou sóbria. Eu, que tinha bebido sei lá quantas doses de whisky, fiquei sóbria quando o rapaz dos olhos mais lindos do mundo gozou na minha boca.
Adoro isso de engolir porra. Não de qualquer um, claro. Eu engulo quando a conquista é grande. E não tem essa de engolir por amor. Afinal, quem ama quer ser correspondido. E ninguém que correspondesse faria sua musa, diva, deusa, amada e adorada engolir um troço com gosto tão ruim.
Fora a dele. A dele era doce e não deixava aquele gosto impregnado. Bom pra caralho.
Ele foi um daqueles que você bate o olho e quer. Pelo menos eu quis. Ele veio falar comigo, mas por incrível que pareça, fiquei sem jeito.
(lembranças)
A última vez que alguém me deixou assim foi na quarta série, quando o menino mais bonito da classe me chamou pra tomar um sorvete. Depois de se divertir me constrangendo, ele me deu o telefone e disse para ligar. Arrã. Pode deixar. Alguns dias depois, nos encontramos de novo, mas dessa vez controlei meus hormônios e fiquei cool. Mesma coisa, disse pra ligar e lançou um olharzinho sugestivo. Liga, ele disse. Arrã. Pode deixar.
Resolvi ligar às 2 da manhã de uma quinta-feira. Pouco inoportuna, hein? Saí pra beber com uns amigos, eles foram embora e eu fiquei vagando pelas ruas. Bateu uma vontade gigante de vê-lo e como eu tinha a desculpa do balaço, toquei o foda-se e liguei.
E você já sabe como acabou. Ele gozando na minha boca, dentro do carro, em uma rua escura.
(fim das lembranças e começo dos comentários)
Homens são mesmo clichês ambulantes. Depois de gozar, ele acendeu um cigarro e soltou a fumaça com um 'ahh' de prazer. Meu deus, eles fumam depois de gozar. Tem coisa mais Óliudiana? Não tem. Talvez aquela clássica cena da garota sexy mexendo os cabelos de um lado para o outro, mas vamos combinar, é foda, fumar depois de gozar é foda.
Ele me levou pra casa. Perguntei se ele queria entrar (opá), mas ele disse que precisava ir. Então tá, eu disse. Nos vemos amanhã?, ele disse. Vemos, mas é a sua vez de ligar. Eu esgotei minha cota telefonando de madrugada, eu disse. Pode deixar, ele disse.
Mas ele não ligou. E quer saber? Azar. Sim, queria vê-lo de novo. Não desesperadamente, mas queria. Sem neuras, por favor. Foi bom e é isso que importa. Essa sensação de conseguir o que quer é divina. Especialmente quando é na medida certa. Muito não é tudo. E tudo não é demais. Demais é quando enche o saco.
* O texto Dostoievski pode esperar é de autoria de Clarah Averbuck, e foi simplesmente 'mesclado' juntamente com o 4º dia de Marcèlle.
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