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[7:41 PM]
O dom de se acabar com uma segunda-feira
Longe das frases poéticas por hoje. O negócio vai ser bem visceral mesmo. Dando um tempo na semana de Marcèlle Coraline Cecília pra dizer nada.
A verdade é que telefone sempre enche o saco. Essa é a grande verdade. As pessoas não querem medir as palavras pra falar comigo, mas me acham filho da puta porque eu não meço meus atos e desligo o ICQ na cara delas. Mas palavras podem ser faladas de qualquer maneira. Eu maltrato os outros. Quer saber... Eu não falo mais com quem eu não conheço. Só com quem é de carne e osso, tem olhos, boca e coração. Não gosto de conhecer gente da internet, e elas não me interessam mais, a partir de hoje elas se restringem ao pequeno espaço entre meu HD, meu modem e meu monitor...
Vamos lá senhorita Gisa, dar as mãos e ir pra Nova Voigordvodina:
ACERCA DA MACROGEOGRAFIA
Daniel Pellizzari
Em Nova Voigordvodina, um homem que certo dia tentou ir à Lua amarrando quarenta e dói balões de hélio no pescoço desceu até o fundo de uma fossa que ele mesmo havia cavado no meio de seu quintal com uma pá emprestada e avisou que nunca mais sairia dali, pois já tinha visto tudo que existia pra ver. Na semana seguinte outro cidadão no Nova Voigordvodina deu início às suas tentativas de suicídio, das quais acabou desistindo quando de seu corpo só restava a unha comprida e suja do dedão do pé esquedo. Também em Nova Voigordvodina existia um palhaço que abandonara seu circo mas não sua fantasia e gostava de se esconder atrás de moitas nos parques, onde ficava fumando um cigarro mentolado atrás do outro para assustar os garotinhos de bermudas que invariavelmente apareciam atrás de uma bola. Na periferia da mesma cidade, perto de onde existia um lago formado de lodo esverdeado com gosto de mingau de maisena sem canela e alto teor alcoólico, vivia um rapaz de nome João Batista, que nos sábados espremia cravos de seu peito até que, ao invés de sebo, surgissem serpentes. Foi para Nova Voigordvodina que a equipe de reportagem da estação de rádio mais importante da capital foi enviada para entrevistar o dono do maior aquário de peixes tropicais do continente, que alimentava todos os dias apenas a vasta fauna de chatos que colhia com método de sua abundante pentelhama. No andar de baixo do mesmo condomínio estatal vivia um adolescente que certa manhã acordou com a mão direita no lugar da direita e a mão direita no lugar da esquerda e passou as semanas seguintes dividindo-se entre experimentar novas modalidades masturbatórias e tentando descobrir se havia se tornado um homossexual. Nova Voigordvodina criou seus próprios ritos funerários, onde os cadáveres não eram enterrados ou cremados ou deixados ao léu ou jogados no mar ou despedaçados para alimentar os abutres, mas despidos e destripados e depilados e salgados e deixados para secar pendurados pelos pés nas árvores de um bosque cheio de salgueiros e dois carvalhos. Foi em Nova Voigordvodina que as orelhas de todos os burocratas conhotos certo dia resolveram que cabeças não eram seu limite, alçaram vôo e desapareceram na estratosfera, enquanto todos os acadêmicos destros experimentavam diversas maneiras de colar seus umbigos de volta na parte baixa da barriga, de onde tinham escapado algumas horas depois de um almoço de língua com ervilhas. Não havia mulheres em Nova Voigordvodina, que assim, como um de seus habitantes que engoliu completamente a si mesmo até desaparecer sem deixar um bilhete de despedida, um dia simplesmente sumiu do mapa oficial do Império, sem que nada de verdadeiramente relevante tivesse acontecido em seu perímetro.
E vamos cantando aquela musiquinha du caralho que a gente ouviu junto ontem:
I'm running 'round the world alone
I'm losing ground away from home
Fade away
Don't let me fade away
Just say it's all right, all right, all right
Tell me there's still some time
Fade away
Don't let me fade away
Just say it's all right, all right, all right
And I'll be feeling fine
I feel my eyes run dry
from learning not to cry
Nothing seems to go as planned
I'm curving down my spine
Because this sun won't shine
I see no light from where I stand
I'm running 'round the world alone
I'm losing ground away from home
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