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[4:06 PM]
I - A LINFA DO LABIRINTO
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Acordei tentando me segurar desesperadamente, tudo girava em torno de mim enquanto eu caía sem controle num abismo sem fundo. Procurei ficar minha visão na faixa de luz da madrugada que entrava por entre as cortinas. O risco leitoso tremia rapidamente. Mover a cabeça na direção da luminosidade da janela tornara minha queda ainda mais vertiginosa. Fiquei móvel, o olhar fixo na linha de luz, esperando a crise passar.
Eu ia mudar de casa naquele dia. Depois do que acontecera, não queria viver ali nem mais um dia. Ouvi a campainha. Deviam ser os homens da mudança. Se o surto passasse eu não poderia sair da cama. Os homens iriam embora sem fazer a mudança.
Mantendo imóvel o corpo estendi a mão e apanhei o remédio sobre a mesinha de cabeceira. Mastiguei a pílula até que se tornasse uma pasta repugnante que engoli com dificuldade, sentindo ânsias de vômito, que felizmente não passaram de violentos engulhos que fizeram meu corpo tremer, aumentando ainda mais minha tontura. O remédio algumas vezes fazia efeito rapidamente, outras não. Duas horas depois, ao engolir, com os mesmos sofrimentos nojentos, a segunda pílula, o ataque passara. Pude então levantar e abrir a porta.
Os homens estavam sentados no chão do corredor da área de serviço, esperando. Começamos a mudança.
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Excerto retirado do livro de Rubem Alves - Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos
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