Um dia acaba ::  

Porque tudo que nasce morre um dia, porque tudo o que nasce deformado tem vida curta. Porque outrora é um vazio chamado agora. Porque decadência e elegância são duas putas com esperma no meio das coxas. Porque nada tem meio. Porque gemer é bem melhor do que recitar. Porque aqui as palavras inacabadas tem fim. Porque tudo acaba. Um dia acaba.
(Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera provocação).



domingo, outubro 31, 2004


[4:06 PM]

I - A LINFA DO LABIRINTO

1

A
cordei tentando me segurar desesperadamente, tudo girava em torno de mim enquanto eu caía sem controle num abismo sem fundo. Procurei ficar minha visão na faixa de luz da madrugada que entrava por entre as cortinas. O risco leitoso tremia rapidamente. Mover a cabeça na direção da luminosidade da janela tornara minha queda ainda mais vertiginosa. Fiquei móvel, o olhar fixo na linha de luz, esperando a crise passar.

Eu ia mudar de casa naquele dia. Depois do que acontecera, não queria viver ali nem mais um dia. Ouvi a campainha. Deviam ser os homens da mudança. Se o surto passasse eu não poderia sair da cama. Os homens iriam embora sem fazer a mudança.

Mantendo imóvel o corpo estendi a mão e apanhei o remédio sobre a mesinha de cabeceira. Mastiguei a pílula até que se tornasse uma pasta repugnante que engoli com dificuldade, sentindo ânsias de vômito, que felizmente não passaram de violentos engulhos que fizeram meu corpo tremer, aumentando ainda mais minha tontura. O remédio algumas vezes fazia efeito rapidamente, outras não. Duas horas depois, ao engolir, com os mesmos sofrimentos nojentos, a segunda pílula, o ataque passara. Pude então levantar e abrir a porta.

Os homens estavam sentados no chão do corredor da área de serviço, esperando. Começamos a mudança.

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Excerto retirado do livro de Rubem Alves - Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos


 


Postado por Sr. R. at 4:06 PM  

terça-feira, outubro 12, 2004


[10:19 AM]

Marcèlle 6º dia de 7

Nada como uma boa noite de sono. Acordar animada. Hibernar é bom, tem dessas coisas, Marcèlle não acredita nessas coisas de energias místicas. Até mesmo porque a única coisa que tem energia por aqui é fio de alta tensão. Marcèlle tem tesão e não tensão.

Hoje estava afim de usar salto alto. Não gosta de saltos-altos, mas sabe que tem um poder de fascinação/dominação diante dos olhos que olham, a 2ª pessoa do plural, o tu. Talvez pela altura, mulheres aumentam centímetros. Talvez fiquem mais altas e mais atraentes, a verdade que ela não sabe o motivos. E também porque o motivo pouco importa, o bom são as conseqüências, ou as inconseqüências, os motivos fazem parte das histórias infantis.

Precisava comer alguma coisa. Tinha fome de viking nórdico das antigas. Da época em que ela realmente nem sonhava em estar no saco do seu pai, na época em que seu pai nem sonhava em ter saco.

Não tinha vontade de preparar o café da manhã. Resolveu ir a padaria que ficava do outro lado da rua para tomar um copo de café com leite, os vizinhos que passavam ali em frente faziam cara feia. Sabe como é, achavam estranho um pobre menina rica tomando um café com leite em um copo lagoinha. Bairro de gente importante é assim. Pessoas de nariz empinado caminhando pra lá e pra cá. Mas Marcèlle não se importava com isso, dizia 'bom dia' pra quem passasse e olhasse na cara dela, as vezes só acenava com a mão, pois estava com a boca cheia de pãozinho francês recheado de margarina barata.

Vestidinho leve e solto, cabelos ainda despenteados. Ainda não usava o salto alto, estava com os chinelos de borracha. Salto alto de manhã pra ir tomar café simplesmente não dá.

Arrumação da casa, juntando roupas espalhadas pelo congado de seu lar. O terreiro tava parecendo uma plantação do nordeste... Terra pra tudo quanto é lado... Só terra. Mas nada. Talvez a última chuva tenha trazido a terra, talvez passarinhos brincando de guerrinha de barro. Não sabe. Mas pouco importa. Muito trabalho pra se fazer até o entardecer.

17:00
Hora de se arrumar...
Banho quente, desgrannhando os cablos curtos com gel. Vestido preto, decote sensual. Contornando a cintura fina e as pernas longas. Marcèlle se olhou no espelho e se achou gostosa. Estava satisfeira com o visual. Mulheres demoram muito pra se arrumar.

20:00
Hora de sair e deixar sua beleza espalhada pela noite de belo horizonte. Transeuntes apressados daqui e dali, noite tumultuada, provocando desjos e espasmos clitorianos nas mulheres. Marcèlle dançou, bebeu, riu, ficou chapada, beijou quem quis, se sentiu livre. Terminou a noite fazendo sexo com um desconhecido no carro em movimento. Adormeceu na casa do desconhecido. Saiu antes que ele acordasse. deixando seu cheiro impregnado no quarto de paredes cobertas com fotos de mulheres nuas. E se foi... Deixando com ele, a lembrança do seu cheiro...


 


Postado por Sr. R. at 10:19 AM  

 


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