Um dia acaba ::  

Porque tudo que nasce morre um dia, porque tudo o que nasce deformado tem vida curta. Porque outrora é um vazio chamado agora. Porque decadência e elegância são duas putas com esperma no meio das coxas. Porque nada tem meio. Porque gemer é bem melhor do que recitar. Porque aqui as palavras inacabadas tem fim. Porque tudo acaba. Um dia acaba.
(Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera provocação).



segunda-feira, agosto 30, 2004


[7:41 PM]

O dom de se acabar com uma segunda-feira

Longe das frases poéticas por hoje. O negócio vai ser bem visceral mesmo. Dando um tempo na semana de Marcèlle Coraline Cecília pra dizer nada.
A verdade é que telefone sempre enche o saco. Essa é a grande verdade. As pessoas não querem medir as palavras pra falar comigo, mas me acham filho da puta porque eu não meço meus atos e desligo o ICQ na cara delas. Mas palavras podem ser faladas de qualquer maneira. Eu maltrato os outros. Quer saber... Eu não falo mais com quem eu não conheço. Só com quem é de carne e osso, tem olhos, boca e coração. Não gosto de conhecer gente da internet, e elas não me interessam mais, a partir de hoje elas se restringem ao pequeno espaço entre meu HD, meu modem e meu monitor...

Vamos lá senhorita Gisa, dar as mãos e ir pra Nova Voigordvodina:

ACERCA DA MACROGEOGRAFIA
Daniel Pellizzari

Em Nova Voigordvodina, um homem que certo dia tentou ir à Lua amarrando quarenta e dói balões de hélio no pescoço desceu até o fundo de uma fossa que ele mesmo havia cavado no meio de seu quintal com uma pá emprestada e avisou que nunca mais sairia dali, pois já tinha visto tudo que existia pra ver. Na semana seguinte outro cidadão no Nova Voigordvodina deu início às suas tentativas de suicídio, das quais acabou desistindo quando de seu corpo só restava a unha comprida e suja do dedão do pé esquedo. Também em Nova Voigordvodina existia um palhaço que abandonara seu circo mas não sua fantasia e gostava de se esconder atrás de moitas nos parques, onde ficava fumando um cigarro mentolado atrás do outro para assustar os garotinhos de bermudas que invariavelmente apareciam atrás de uma bola. Na periferia da mesma cidade, perto de onde existia um lago formado de lodo esverdeado com gosto de mingau de maisena sem canela e alto teor alcoólico, vivia um rapaz de nome João Batista, que nos sábados espremia cravos de seu peito até que, ao invés de sebo, surgissem serpentes. Foi para Nova Voigordvodina que a equipe de reportagem da estação de rádio mais importante da capital foi enviada para entrevistar o dono do maior aquário de peixes tropicais do continente, que alimentava todos os dias apenas a vasta fauna de chatos que colhia com método de sua abundante pentelhama. No andar de baixo do mesmo condomínio estatal vivia um adolescente que certa manhã acordou com a mão direita no lugar da direita e a mão direita no lugar da esquerda e passou as semanas seguintes dividindo-se entre experimentar novas modalidades masturbatórias e tentando descobrir se havia se tornado um homossexual. Nova Voigordvodina criou seus próprios ritos funerários, onde os cadáveres não eram enterrados ou cremados ou deixados ao léu ou jogados no mar ou despedaçados para alimentar os abutres, mas despidos e destripados e depilados e salgados e deixados para secar pendurados pelos pés nas árvores de um bosque cheio de salgueiros e dois carvalhos. Foi em Nova Voigordvodina que as orelhas de todos os burocratas conhotos certo dia resolveram que cabeças não eram seu limite, alçaram vôo e desapareceram na estratosfera, enquanto todos os acadêmicos destros experimentavam diversas maneiras de colar seus umbigos de volta na parte baixa da barriga, de onde tinham escapado algumas horas depois de um almoço de língua com ervilhas. Não havia mulheres em Nova Voigordvodina, que assim, como um de seus habitantes que engoliu completamente a si mesmo até desaparecer sem deixar um bilhete de despedida, um dia simplesmente sumiu do mapa oficial do Império, sem que nada de verdadeiramente relevante tivesse acontecido em seu perímetro.

E vamos cantando aquela musiquinha du caralho que a gente ouviu junto ontem:

I'm running 'round the world alone
I'm losing ground away from home

Fade away
Don't let me fade away
Just say it's all right, all right, all right
Tell me there's still some time
Fade away
Don't let me fade away
Just say it's all right, all right, all right
And I'll be feeling fine

I feel my eyes run dry
from learning not to cry
Nothing seems to go as planned
I'm curving down my spine
Because this sun won't shine
I see no light from where I stand

I'm running 'round the world alone
I'm losing ground away from home




 


Postado por Sr. R. at 7:41 PM  

domingo, agosto 29, 2004


[2:54 PM]

Marcèlle 4º dia de 7

Acorda borrada, sombra azulada nas pálpebras. Tudo por culpa do telefone que tocava insistentemente. Atendeu com a voz sonolenta, quase sussurrada.

- Alô.
- Alô, Marcèlle?
- Sim, quem é?
- O Ricardo.
- Ricardo? Mas que Ricardo?
- Você se esquece das pessoas assim? O Ricardo de ontem? O da boate.
- Ahhh, o Ricardo do inferno.
(Risadinhas do outro lado do telefone).
- Sim, esse mesmo.
- Poxa, eu esperava que você fosse me ligar, mas justo agora? Podia ser mais tarde não?
- Que horas você pensa que são mocinha?
(Marcèlle olhou para o relógio e viu que tinha dormido prolongadas 18 horas. Só não conseguia entender porque ainda estava com tanto sono).
- Olha Ricardo, me dá o seu telefone, eu vou terminar de acordar aqui e depois de ter feito isso eu te ligo, pode ser?
- Claro.
(Anotou o telefone em um guardanapo que estava sobre o criado-mudo e desligou o ?ring-ring?).

Marcèlle gostava de telefones, mas odiava ser acordada. O mau humor era inevitável nessas horas. Mas ela poderia fingir estar sorrindo, as pessoas, mesmo que ao telefone, percebem que você está sorrindo. Ser simpático não é nenhum dom, pode-se muito bem fantasiar uma carinha risonha.

Exercício matinal:
Levantar o peso do próprio corpo cansado da cama, caminhar escorada na parede (step by step), subir os intermináveis degraus de sua escada, mais caminhada escorada na parede (step by step), abrir os olhos e se assustar com a claridade das seis da tarde. Nada como uma massagem ?chuveiral? depois de tanto exercício. Água quente. Marcèlle adorava o quando o banheiro ficava enfumaçado. Adorava escrever no espelho alguma coisa.

18 horas de sono e o peso nos ombros ainda estava lá. O corpo doía. Mas tem coisas que não se pode entender. E Marcèlle não fazia questão de entender o que se passava.

Café da manhã:
Dois copos de Coca-Cola e um cigarro de filtro amarelo.

Marcèlle quase esqueceu de ligar para o tal Ricardo, se não fosse o papelzinho com o telefone em cima do criado-mudo jamais se lembraria do telefonema que a despertara a 2 horas atrás. Resolveu ligar para o tal moço às 2 da manhã, resolveu ligar para conversar um pouco, já que o verbo sair estava literalmente riscado dos planos de Marcèlle para o restante do dia.
Túuu... túuuu... túuuu

- Alô!
- Por favor, o Ricardo está?
- É ele.
- Aqui é a Marcèlle?
- Marcèlle? Mas que Marcèlle?
Uma pessoa com senso de humor, Marcèlle gostava de pessoas com senso de humor.
- A Marcèlle da noite passada.
- Ahhh sim... A Marcèlle. Olá Marcèlle, como vai?
- Vou bem senhor Ricardo, melhor agora que os olhos estão abertos.
- Pois é, pensei que você não fosse ligar.
- A verdade é que eu realmente pensei em não te ligar, mas sabe como é, ossos do ofício.
- Ahhh, então quer dizer que a senhorita está dando uma de difícil.
- É mais ou menos isso.
- Que bom.
Nesse instante Marcèlle pegou o Celular e saiu de casa, foi para a calçada para respirar um pouco do ar da cidade grande.

Dostoievski pode esperar *

- Você estava dormindo?
- Não, não... Onde você tá?- Na rua. Vem pra cá e vamos fazer alguma coisa. (nesse momento o plano de ficar em casa tinha acabado de ir para o brejo).- Mas fazer o quê?
Porra. Como assim, fazer o quê?
- Sei lá. O que você tá fazendo em casa?- Lendo.- Olhaí, podemos ler.
Ele riu. Ufa. Pelo menos não estava dormindo, é o que as pessoas costumam fazer a essa hora.
- Não sei, Marcèlle... Estou aqui lendo Dostoievski e...
- Ah, pára! O Dostoievski pode esperar, eu não. Vem pra cá.

Não tinha como recusar. Às vezes eu tenho muito orgulho das minhas frases. Acabamos bebendo e conversando em um boteco qualquer, mas era óbvio que alguma coisa ia acontecer ali. Tensão sexual, eu adoro isso. Você sabe que a pessoa quer, você quer, mas vocês insistem em falar sobre o primeiro disco do Chet Baker.
O dono do boteco nos expulsou pra lavar o chão com suas botas sete-léguas e decidimos ir para 'outro lugar'. Rodamos, rodamos, tudo fechado. Província é foda. Paramos em uma rua, fui trocar a música do cd e ele me atacou. Huh-huh, great. Já cansei de atacar, faço isso desde os 13 anos, está na hora dos homens se redimirem comigo. Começamos bem.
Disse meu nome e encheu minha boca de porra. Mas não era qualquer porra, daquelas que têm gosto de cola tenaz com clorofina e farinha. A porra dele era doce. Doce mesmo, de verdade, gosto bom. Até me deixou sóbria. Eu, que tinha bebido sei lá quantas doses de whisky, fiquei sóbria quando o rapaz dos olhos mais lindos do mundo gozou na minha boca.
Adoro isso de engolir porra. Não de qualquer um, claro. Eu engulo quando a conquista é grande. E não tem essa de engolir por amor. Afinal, quem ama quer ser correspondido. E ninguém que correspondesse faria sua musa, diva, deusa, amada e adorada engolir um troço com gosto tão ruim.
Fora a dele. A dele era doce e não deixava aquele gosto impregnado. Bom pra caralho.

Ele foi um daqueles que você bate o olho e quer. Pelo menos eu quis. Ele veio falar comigo, mas por incrível que pareça, fiquei sem jeito.
(lembranças)
A última vez que alguém me deixou assim foi na quarta série, quando o menino mais bonito da classe me chamou pra tomar um sorvete. Depois de se divertir me constrangendo, ele me deu o telefone e disse para ligar. Arrã. Pode deixar. Alguns dias depois, nos encontramos de novo, mas dessa vez controlei meus hormônios e fiquei cool. Mesma coisa, disse pra ligar e lançou um olharzinho sugestivo. Liga, ele disse. Arrã. Pode deixar.

Resolvi ligar às 2 da manhã de uma quinta-feira. Pouco inoportuna, hein? Saí pra beber com uns amigos, eles foram embora e eu fiquei vagando pelas ruas. Bateu uma vontade gigante de vê-lo e como eu tinha a desculpa do balaço, toquei o foda-se e liguei.
E você já sabe como acabou. Ele gozando na minha boca, dentro do carro, em uma rua escura.
(fim das lembranças e começo dos comentários)
Homens são mesmo clichês ambulantes. Depois de gozar, ele acendeu um cigarro e soltou a fumaça com um 'ahh' de prazer. Meu deus, eles fumam depois de gozar. Tem coisa mais Óliudiana? Não tem. Talvez aquela clássica cena da garota sexy mexendo os cabelos de um lado para o outro, mas vamos combinar, é foda, fumar depois de gozar é foda.

Ele me levou pra casa. Perguntei se ele queria entrar (opá), mas ele disse que precisava ir. Então tá, eu disse. Nos vemos amanhã?, ele disse. Vemos, mas é a sua vez de ligar. Eu esgotei minha cota telefonando de madrugada, eu disse. Pode deixar, ele disse.
Mas ele não ligou. E quer saber? Azar. Sim, queria vê-lo de novo. Não desesperadamente, mas queria. Sem neuras, por favor. Foi bom e é isso que importa. Essa sensação de conseguir o que quer é divina. Especialmente quando é na medida certa. Muito não é tudo. E tudo não é demais. Demais é quando enche o saco.

* O texto Dostoievski pode esperar é de autoria de Clarah Averbuck, e foi simplesmente 'mesclado' juntamente com o 4º dia de Marcèlle.



 


Postado por Sr. R. at 2:54 PM  

quinta-feira, agosto 26, 2004


[2:55 PM]

Marcèlle 3º dia de 7

Passos desconexos na pista de dança, mão boba pra lá, mão boba pra cá. Dançava habilmente com o menino de olhos rasgadinhos, o menino que falava latim e que ofegava impiedosamente na nuca de Marcèlle. Que a essa altura da festa já estava suada e com os cabelos desgrenhados. Em certo momento, o menino de olhos claros soltou mais uma frase: ?Naevos nostros et cicatrices amamus?.

- Olha aqui, não leva a mal não, tu é bonito, dança bem, to gostando de estar aqui com você, mas será que dá pra falar alguma coisa que eu entenda? Realmente ficar falando o que eu não entendo não me enche de tesão e muito menos vai me levar pra sua cama.
- Opa, uma abordagem direta. Gosto de pessoas diretas. Sem rodeios e coisas do tipo. Estamos dançando aqui a um bom tempo e até agora você não me disse o seu nome.
- Eu não disse? Como assim? Acho que foi você quem não perguntou. Mas me chamo Marcèlle.
- Muito prazer Marcèlle, me chamo Ricardo.

Marcèlle gostava de nomes que começavam com ?R?. Era apaixonada por nomes. Em sua agenda tinha uma lista infindável de nomes, dos mais bizarros aos mais poeticamente perfeitos. Um estranho gosto, diriam alguns. Era como um cacoete, só que ao invés de tiques, ela escrevia nomes na sua agenda. Mas Ricardo não precisava saber disso, seria meio patético dizer: Ahhh, eu gosto de nomes que começam com a letra ?R?, melhor dizendo, seria deploravelmente patético.

E durante as apresentações, Ricardo deu um selinho em Marcèlle, que não ficou satisfeita com o pequeno ?abuso? do rapaz, puxando-o em seguida, jogando-o contra seu corpo e lascando-lhe um beijo voraz, chupando língua e saliva com vontade. Marcèlle não gostava de frescuras, preferia pessoas diretas, e o rapazinho não era tão direto assim, talvez por causa da pouca idade, pelo menos aparentava ter pouca idade, não mais que 20 anos, enquanto Marcèlle no auge dos seus muito bem vividos 23 anos sabia muito bem o que queria e não fazia rodeios para chegar onde queria.

Nesse instante Marcèlle lembrou-se das amigas que estavam sentadas na mesa e resolveu ver como elas estavam.

- Ricardo me espera aqui que eu vou ali conversar com as minhas amigas.
- E será que eu te vejo hoje ainda?
- Mas é claro, me espera no bar daqui a uns 40 minutos que eu estarei lá.

Olhou para trás, deu uma piscadinha maliciosa com a língua encostada no lábio superior esquerdo e saiu para encontrar suas companheiras.

Chegando à mesa, Marcèlle deu de cara com suas amigas sendo praticamente fodidas por mãos desconhecidas na mesa, dois rapazes faziam companhia para as amigas, e estavam com as mãos por debaixo de seus vestidos enquanto as beijavam com vontade.

- Desculpem-me pela intromissão, mas só estou pegando a minha bolsa. Preciso ir ao banheiro retocar a minha maquiagem.
- Marcèlle, não se esqueça da gente aqui não, por favor, não vá embora sem nos avisar.
- Não se preocupem moças, viemos juntas e vamos embora juntas, a menos que vocês não queiram.

E outro sorriso malicioso foi solto no ar enquanto virava as costas e seguia em direção ao toalete.

Suor, cabelos desgrenhados, maquiagem borrada, olhos de panda, não estava feia, muito pelo contrário, estava linda, com um ar meio blasé meio esnobe Marcèlle retirou o batom de cor clara da bolsa e passou nos lábios, tirou o excesso com um papel toalha e aproveitou para retirar o excesso da maquiagem dos olhos. Uma mulher que saia do banheiro passou a mão nas coxas de Marcèlle, o que não a assustou, mas não esperava por aquilo. Não disse nada, fechou a cara e fingiu que nada tinha visto.

40 minutos depois, Marcèlle no bar pedindo o de sempre, vodca com alguma coisa misturada, leu o menu e pediu uma batida qualquer.

Cinco minutos depois Ricardo reaparece no local.

- Você está atrasado mocinho, não é nada elegante deixar uma dama sozinha em um lugar como este, cheio de abutres (machos e fêmeas) rondando pra lá e pra cá atrás da refeição da noite.
- Me desculpe mocinha, não queria te fazer esperar. Mas sabe como é, relógios nunca estão no mesmo horário. Sempre atrasados ou adiantados alguns minutos.

Marcèlle não estava preocupada com explicações, falou por falar. Como uma mulher qualquer.

Conversas, assuntos bobos, alguns sorrisos amarelos, cigarros, vodca, beijos, língua, mãos, desejo. A madrugada perdurou e tarde da noite Marcèlle já não agüentava mais ficar de pé, o salto a estava matando. Disse a Ricardo que precisava ir.

- Mas já? (o rapazinho pareceu assustado)
- Como assim já meu bem? Já são 05:37 da manhã. Hora de uma mocinha como eu estar na cama.
- Eu te ponho na cama, te faço cafuné e durmo abraçado com você.
- Não meu bem, hoje não, eu te dou o meu telefone e a gente combina de sair outro dia, mas hoje realmente não estou a fim de ir para cama com você.
- Ricardo ficou meio chateado com a resposta da moça, mas aceitou o seu telefone.
- Não é que seja você, quando eu falei você estava me referindo a qualquer homem que tivesse feito essa proposta.
A situação melhorou um pouco, Ricardo parecia ter ficado feliz ao ouvir aquilo.
- Mas eu posso te ligar mesmo?
- Claro, é por isso que estou te dando o meu telefone, pra você me ligar, algum dia, dia nenhum, você escolhe.
- Pode ter certeza de que vou te procurar.
E a despedida foi longa, beijos, mãos, desejo...

Após a despedida Marcèlle foi atrás das amigas, que estavam na mesma mesa,sentadas e suadas, devem ter ido dançar pensou Marcèlle, com os mesmos caras, agora com um ar meio enjoado/enojado. Pareciam alcoolizadas com a conversa dos rapazes.

- Estou indo embora, alguém me acompanha?
- Claro, estou indo com você.
- Eu também.
Levantaram-se rapidamente e foram saindo, mal-mal se despediram dos rapazes. Que não sentiam mais nenhum tipo de desejo pelas meninas, pois haviam feito uma festinha louca no banheiro feminino. Talvez por isso as amigas de Marcèlle estivessem cabisbaixas, com um olhar meio envergonhado. Mas não estava a fim de conversar sobre isso, pois tinha acabado de ter uma noite agradável, tinha conhecido um cara legal, tinha bebido sua bebida qualquer misturada com vodca e riu, sorriu, cantou, dançou se divertiu.

Quando estavam saindo Marcèlle deu uma olhada pelo local, travestis rebolando na pista de dança, seios a mostra nos cantos do inferno, caralhos eretos e pulsantes em mãos hábeis, e olhando pra tudo isso Marcèlle saiu do inferninho de vovó Mafalda e seguiu para o seu carro, para sua casa.
Chegou em casa com o dia amanhecendo. É bonito ver o nascer do sol em Belo Horizonte. Gostava de ficar perdida, olhando pro horizonte, vendo fachos amarelo reluzentes quase alaranjados saindo por detrás dos prédios. E com esse lindo dia Marcèlle abriu a porta de casa, quase adormecendo, tirou o salto, tirou o salto e adormeceu com o vestido de festa. Nessa noite, Marcèlle dormiu de rímel e acordou de sombra...



 


Postado por Sr. R. at 2:55 PM  

sábado, agosto 21, 2004


[5:10 PM]

Marcèlle 2º dia de 7

Depois de uma reconfortante noite de sono, a roupa do dia seguinte ainda estava no corpo. O gosto seco saindo da boca. Parecia que alguém sugado todo o seu estoque de saliva. Sentia a língua estranha, sentia uma leve dor de cabeça e tinha vontade de vomitar. Podíamos dizer que eram os efeitos da inconseqüência da noite anterior, mas havia bebido um único copo de vodka com suco de pêssego e tinha dormido cedo. O rádio relógio sobre a cômoda marcava insistentemente sete horas da manhã em ponto, sem segundos e sem minutos.

Criou coragem e levantou-se da cama e foi caminhando até o banheiro se apoiando nas paredes de pátina do seu quarto. Andando meio devagar, pois não queria levar um tombo, pois sabia que se caísse ali simplesmente não conseguiria se levantar. O corpo cansado demais. Nada como um banho mormo para revigorar o corpo, e com esse pensamento Marcèlle adentrou-se no boxe fume e deixou a água do potente chuveiro massagear-lhe as costas. Lavou os cabelos com xampu de maça, esfregou o corpo com algum sabonete neutro que estava na saboneteira enquanto cantarolava alguma música francesa antiga. (Música que esse estúpido escrevente com certeza desconhece).

Após sair do banho sentindo-se bem melhor, já enrolada no roupão de banho rosa de algodão. Desceu as escadas até a cozinha e pegou um cacho de uvas para o café da manhã. Enquanto andava com o cacho de uvas pela casa, ora colocando uma na boca, viu o gato cinza de seu pai se coçando na quina da escada. Não deu muita importância, não gostava de gatos. Pegou o jornal do dia para ler e nada lhe interessou muito, correu os olhos em alguns quadrinhos de humor momentaneamente lhe interessaram e subiu para trocar sua roupa.

Calor, verão em Belo Horizonte. Decidiu colocar um vestido solto e uma sandália baixa, sem salto. Olhou-se no espelho e se achou sexy. E isso era o que realmente importava. Enquanto isso decidiu sair para comprar algo para fazer o almoço, nada muito pesado, uma leve salada com algum suco natural. Marcèlle não almoçava em dias comuns, mas hoje estava com vontade de cozinhar, e o almoço foi um simples pretexto. Saiu, comprou folhas verdes, rabanete, um vidro de palmito em conserva, azeitonas verdes, e algumas batatas, levou algumas laranjas para fazer o seu suco, já que Marcèlle odiava refrigerantes, a não ser que eles viessem misturados com alguma coisa altamente alcoólica, mas isso não vem ao caso agora.

Chegando em casa preparou o seu almoço, que não será detalhadamente descrito aqui para que o texto não fique chato e monótono.

Almoçando decidiu ligar o rádio para ver quais eram as bandas do momento, músicas, letras e melodias. Era apaixonada por música, adorava ouvir e falar sobre música, adorava sentir cheiro de música pelo seu quarto, adorava colocar um cd quando chegava em casa depois de uma balada, cada melodia dizia o que Marcèlle sentia naquele momento.

Terminado o almoço resolveu ligar para as amigas para conversar futilidades. Marcèlle não confia em mulheres, por isso, nada de se abrir e falar coisas para suas amigas, amigas não são nada mais do que boas companhias para momentos de distração/diversão. Falou que queria sair e combinaram de sair tarde da noite, quando a noite de Beagá fica boa, lá pelas onze.

Até a chegada da noite Marcèlle leu algumas poesias de um livro qualquer de Charles Baudelaire. Cochilou quando a noite caiu e acordou novamente quando o ?cuco? da sala apitou nove da noite. Levantou meio sonolenta-cambaleante e resolveu se aprontar.

Tomou um banho gelado para despertar. Adorava sentir a água caindo pelo corpo. Preferia tomar banho na sua grande e redonda banheira de hidromassagem, mas hoje não tinha tempo para relaxar. Enrolou-se na sua toalha de algodão e saiu com os cabelos molhados, ainda pingando gotas de água sobre chão. Com esse calor daqui, já já a água evapora, não se preocupou muito com isso. Passou intermináveis minutos frente ao armaria escolhendo o que ia vestir para a sua noite. Por mais que Marcèlle seja uma mulher diferente, ela ainda é mulher, e por isso o tempo que ela gasta para se aprontar é igual ao que qualquer outra mulher normal gastaria. Demorou, mas ficou linda.

Onze e quinze e o telefone toca, Marcèlle, assim a gente vai sair só amanhã, será que dá pra ?apertar o passo?? Marcèlle pegou o maço de cigarros, o batom, e colocou-os na bolsa. Propositalmente Marcèlle esqueceu o celular em cima da cômoda, não queria ser incomodada por ninguém.

Marcèlle passou na casa das amigas meia hora depois do combinado (onze e meia), trocaram selinhos e partiram rumo deliciosa e fresca noite que as aguardava.

- Pra onde vamos?
- Não sei, tem uma boate no São Pedro que dizem ser boa.
- Qual o nome?
- Eles chamam o lugar de inferninho da vovó Mafalda.

Nesse momento Marcèlle fez beicinho, mas resolveu ver do que se tratava. Nada de julgar lugares por causa de seus nomes estranhos.

Enquanto se dirigia para o inferninho da vovó Mafalda Marcèlle entrou em ruas desconhecidas, becos sem saída e depois de vinte e cinco minutos na direção do seu carro um ponto zero, chegaram ao famoso inferninho.

A primeira impressão foi boa. Gente bonita circulando por lá. A aparência da boate era agradável e o melhor de tudo, tinham motoristas para estacionar o carro. Saíram do carro apressadamente, pegaram suas fichas de consumação mínima na porta do inferno e tinham que escolher uma pulseira para colocar no braço, vermelha, comprometida, amarela, somente afim de curtir e verde, completamente disponível. Marcèlle pegou uma de cada cor para ficar mais fashion.

Entraram, procuraram uma mesa e deram sorte, um casal saia de uma delas no segundo piso do inferno. As meninas sentaram, menos Marcèlle que deixou sua bolsa em cima da mesa e foi para a pista dançar freneticamente ao som de alguma batida meio rouca de um DJ alemão. Até que em certo momento daquela batida louca que parecia ser insistentemente a mesma o tempo todo, ela ouviu um sussurro em seu ouvido: ?Latere semper patere, quod latuit diu?. Não entendeu merda nenhuma, mas também não se preocupou em perguntar do que se tratava, já que rapazinho, aparentemente mais jovem do que ela, tinha um lindo olhar azul de olhos rasgadinhos, olhos que pareciam duas vírgulas quando ele sorria.

E assim acabou o segundo dia de Marcèlle, já que já eram meia-noite e uma da madrugada e o terceiro dia estava começando agora...



 


Postado por Sr. R. at 5:10 PM  

domingo, agosto 15, 2004


[12:04 PM]

E a senhorita Marcèlle Coraline Cecília está de volta. Com seu jeito meigo, com seu olhar melancólico... Novamente suas aventuras publicadas. Uma semana. Sete dias de um poente desbotado. No caminho coberto por flores rosas, cortado-o. Transmutação de donzela em puta. Por pouco tempo. Poucas horas. Agora.

Marcèlle 1º dia de 7

Marcèlle estava sentada em um bar na Savassi. Marcèlle odeia a Savassi, mas ainda a freqüenta porque sabe que só lá pode encontrar com seus amigos, que ainda insistem em beber naqueles bares caros. Ela não tem nada contra gastar dinheiro, mas acha que para se fazer isso deve-se sentir um pouquinho de prazer. E Marcèlle não tem nenhum tesão pela savassi. Ela gosta de caminhar pela praça da Liberdade domingo de manhã pós feriado. Acha linda aquela praça vazia.

Mas Marcèlle ainda estava no bar, pediu ao garçom alguma coisa misturada com vodka, qualquer coisa, podia ser suco. E foi o que moço fez. Trouxe suco de pêssego misturado com vodka para a senhorita linda de olhos azuis cintura fina, seios pequenos, saia um pouco acima dos joelhos, óculos escuros sobre a cabeça segurava a franja. Uma moça linda. Perfeita. E o garçom também achava isso. Mas Marcèlle não estava muito afim de conversar neste dia. Queria conhecer alguém. Hoje Marcèlle estava para rapazes, não queria conhecer garotas. Marcèlle queria se apaixonar. Estava com saudade de sentir a perna bamba, a palma da mão suando, saudade de sentir saudade de alguém. Saudade. Humpffff.

A verdade é que hoje Marcèlle estava cansada da viagem, ela quer sair para se apaixonar. Mas hoje ela só quer dormir. Pensar na vida, respirar o ar da cidade grande. Olhar pra cidade que tem um Belo Horizonte e rever algumas poucas pessoas. Hoje, sem saco para nada. Ela não está nos seus dias ?ovulantes?, mas não tem saco. Meninas temperamentais às vezes enchem o saco.

Simplesmente não estava afim de encher o saco de ninguém hoje. Pagou seu ?suco? e voltou para casa, ligou o som... e Marcèlle chorou ao ouvir a linda canção feita em 1982, quando ela nem era nascida, por Joe Jackson, a música se chamava Real Men. Mas a voz que cantava a música deixava-a ainda mais perfeita. Tori Amos cantava uma versão mais recente. Linda. Foi impossível não cantarolar com a música...

Take your mind back - I don't know when
Sometime when it always seemed
To be just us and them
Girls that wore pink
And boys that wore blue
Boys that always grew up better men
Than me and you
What's a man now - what's a man mean
Is he rough or is he rugged
Is he cultural and clean
Now it's all change - it?s got to change more
'Cause we think it's getting better
But nobody's really sure
And so it goes - go round again
But now and then we wonder who the real men are
See the nice boys - dancing in pairs
Golden earring golden tan
Blow-wave in the hair
Sure they're all straight - straight as a line
All the gays are macho
Can't you see their leather shine
You don't want to sound dumb - don't want to offend
So don't call me a faggot
Not unless you are a friend
Then if you're tall and handsome and strong
You can wear the uniform and I could play along
And so it goes - go round again
But now and then we wonder who the real men are
Time to get scared - time to change plan
Don't know how to treat a lady
Don't know how to be a man
Time to admit - what you call defeat
'Cause there's women running past you now
And you just drag your feet
Man makes a gun - man goes to war
Man can kill and man can drink
And man can take a whore
Kill all the blacks - kill all the reds
And if there's war between the sexes
Then there'll be no people left
And so it goes - go round again
But now and then we wonder who the real men are

E em meio à lágrimas e falta de paciência, Marcèlle adormeceu querendo se apaixonar... Adormeceu ouvindo Real Men... Chorando-sorrindo, triste-feliz, alegre-cantante...



 


Postado por Sr. R. at 12:04 PM  

sexta-feira, agosto 13, 2004


[5:20 AM]

A gentil arte de saber ficar fora da sala de aula

Ontem a noite estava fria. O vento me apodrecendo as orelhas. Mas sabe como é, é melhor ficar passando frio do lado de fora da sala do que ficar no aconchego quente das carteiras, coleguinhas bunitos e da combinação professor-quadro negro (no caso, um troço branco pra se escrever com pincel).

Foi mal, mas ontem a noite foi ducaralho, foi por uma boa causa, matei aula. Encho a boca pra falar isso, mas agora estou começando a ficar com a consciência pesada. A segunda semana de aula tá terminando e eu ainda não assisti nenhuma aula, minhas faltas estão começando a me preocupar. E os meus amiguinhos acadêmicos demais vão me achar estúpido e incoerente. Mas tá aí uma coisa que não vai fazer muita diferença. Ser incoerente em instituições acadêmicas nem é tão ruim assim. Talvez seja. Mas que mal há em ter uma visão otimista das coisas? Hein, hein?

Tava com saudade de rir com o pessoal, ontem a barriga doeu. Muitas gargalhadas. Hoje sexta-feira 13, mês de agosto. Talvez seja bom ir com um galho de arruda atrás da orelha pra faculdade hoje. Os alunos do prédio de direito estão querendo jubilar a turma do sereno, a gente ri alto demais e atrapalha as aulas dos futuros adevogados.

O juiz abre a sessão: O ESTADO CRISTÃO X TURMA DO SERENO

E depois dessa baboseira toda, eu só preciso saber de uma coisa. As férias de novembro começam que dia mesmo?



 


Postado por Sr. R. at 5:20 AM  

domingo, agosto 08, 2004


[7:01 PM]


Me deixa tocar seus sonhos.
Me envolva por sob sua pele e me queira sutil. Pervertido. Opressor. Agressor.
Me faça querer e me sinta desejar.

As mãos nas nucas nuas.
Os pés sob edredons coloridos. Partindo do porto dos lamentos. Para chegar no destino dos caminhos que nunca começam.

Separado por viagens inesquecíveis.
E lágrimas de eu queria ter sido.
Me deixe sentir o gosto da decadência.
Me deixe perdido no meio dos escombros.

Pra poder partir e encontrar meu lar.
Pra poder voltar e me sentir em casa.
Pra querer cortar as lamúrias de quem sorri demais.
Oprimindo a juventude vulgar das formas não-métricas de algo irreconhecível...

____________________________________

Foto by: Damone
Texto by: R.




 


Postado por Sr. R. at 7:01 PM  



[11:12 AM]

Amanhã lá, naquele lugar

Nisto (prep em + pron demont. isto), 08 de agosto de 2004.

Todas as coisas tem verdades escondidas por detrás daquela aparência inocente de meninas puras e delicadas. Coisas. Formas. Sem vida. Cultura.

Anda difícil crescer por essas bandas de cá. Medo. Somos adeptos da cultura do medo. Temos medo de sair de casa e nos divertir. Temos medo de enfrentar a selva brasileira. A lei do olho por olho e do dente por dente. Medo de ir ao teatro enriquecer nossos olhares nervosos e vermelhos de ver desgraças em telejornais que conseguem altos índices de audiência mostrando notícias de decaptação no oriente.

Cadê minha cultura? Quando é que vou poder ir ao cinema, pegar ônibus no centro da cidade e poder levar o celular? Quando é que vou poder fumar sossegado meu cigarro sem ser amolado por um transeunte mal encarado me pedindo um trago? Quando é que vou poder andar com sacolas de livros sem ser perseguido? Quando? - Não tem quando. Hoje é um amanhã sem vida. Amanhã é uma história de ficção. Onde putas observam das sacadas cafetões queimando mamilos de bicha.

Hoje em dia no meio dessa parafernália toda de tecnologias digitais. Ficou mais chato sair de casa. Aluga-se DVD, ouve-se MP3 na tevê. Enquanto você conecta na internet e baixa as notícias do que aconteceu no mundo hoje. Tudo isso sem ter que sair do aconchego do seu lar. Uma vida sem riscos. Mas onde está a graça nisso tudo? Onde está a graça do pôr do sol? Onde está a graça dos ventos frios? Onde está a graça dos risadas estranhas? Onde está a graça das roupas coloridas? Onde está a graça do sorriso sem graça?

A vida nos prega peças estranhas. Não tenho o hábito de sair muito de casa. As amizades não ajudam. As noites muito menos. Já me jogaram isso na cara. Você não sai de casa e não cata mulher.' - O engraçado é que ser conquistador não é uma tarefa difícil. O difícil é achar gente interessante. Hoje em dia você não pode se atrever muito. As mulheres andam com navalhas afiadas escondidas dentro da meia calça, na altura das coxas. E toda noite que conta uma história começa ali, nas coxas.

Mas isso pouco importa. Isso daqui não é um blog de sensações pessoais acerca do que deveria estar sendo mas não é.

Vou começar a pensar o meu epitáfio. Sabe como é. É bom pensar no futuro. E essa é a única certeza que podemos ter dele (o futuro). Todo mundo enterra... Todo mundo é enterrado. Com terra esmagando os peitos. Sem caixão. Enterrados como indigentes. Em Voigordivodna. A cidade que só existe aqui. No preto e branco das retinas amarelas de vergonha.



 


Postado por Sr. R. at 11:12 AM  

quinta-feira, agosto 05, 2004


[3:32 PM]

Crucificado pela segunda vez...

Tinha os peitos tão grandes, e segurava a Bíblia com tanto entusiasmo, que os bicos dos seios duros e acesos, pareciam dois espinhos sob a blusa. Jesus amassado ali no meio de tanta substância, sentia-se crucificado pela segunda vez...



 


Postado por Sr. R. at 3:32 PM  

quarta-feira, agosto 04, 2004


[1:49 PM]

Experiência de vida

Eu gosto de velhos. Gosto da vivacidade escondida por detrás das rugas e da pele flácida. Gosto do cheiro de loção de bebê que eles usam.

Hoje fiquei conversando um bom tempo com uma velhinha que estava sentada na mesinha da loja de conveniência do posto de gasolina onde eu trabalho (cerca de 20 minutos).

- Olá meu filho.
- E aí... Beleza? Como vai a senhora?
- Tudo bem. E você.
- Tudo bom.

.
.
.

- Você furou a boca?
- Furei (e dei um puxão no piercing pra mostrar que o porcaria da argolinha não era de pressão, enquanto isso, ela fazia uma cara de dor e de repúdia).
- Você é tão bonito, um menino inteligente, faz essas coisas por modismo não meu filho.
- Pode deixar... Eu vou tirar (um dia...).

E a gente conversou sobre meninas, sexo e o caralho a quatro. Ela me falou de amor próprio. Uma doce nova senhora velha. E ela me disse: 'Você já reparou como as meninas gostam de homens de terno?'
Já... Meninas gostam de estatus senhora. E é por isso que elas adoram 'adevogados' de terno e gravata que andam por aí com leis e códigos tatuados na testa.

E meninas se sentem atraídas por homens de ternos. É verdade. Talvez eu comece a usar ternos, para chamar a atenção. Ou talvez eu simplesmente pendure uma melancia no meu pescoço.

Mas é bom conversar com pessoas de mente aberta, maleáveis. Tranqüilas. Meu dia valeu a pena simplesmente por isso. Porque eu ando adiando ser eu. E tô de saco cheio de olhar na porra do espelho. E hoje o dia foi menos chato. E a gente pode dormir mais tranquilo.



 


Postado por Sr. R. at 1:49 PM  

segunda-feira, agosto 02, 2004


[5:25 PM]

08 de maio de 2003

E as pessoas falsas me cansam (hipócritas demais)
E esse meu ranço me cansa (incompreensível e tedioso demais)
E os meninos me cansam (machistas demais)
E as meninas me cansam (feministas/sexistas demais)
E os avós me cansam (cansados demais)
E o horário político me cansa (explicações demais)
E as instituições de ensino me cansam (gaiolas de pensamentos)
E me cansa não ter uma caixa de bonbons ao meu lado,
Me cansa essa falta de sentir falta de alguém
Me cansa escrever sobre cansaços e saudades, me cansa escrever sobre qualquer coisa. Acho que tá no hora de dedicar aos filmes, a culinária e a música.

Cama, edredom e pipoca (em seus inúmeos sabores e acompanhamentos).

E quando a gente tá cansado de tudo, doente, deprimido, sem vontade de falar, conversar, ouvir pessoas, sem saco pra acreditar nas coisas, sem pensamentos positivos pra levantar o ego da gente, nos resta observar as coisas e sentir saudade de outras.
Acho que outono-inverno combina com lembranças e recordações, com saudade de coisas e pessoas.

E só me vem a mente àquela musiquinha triste que eu colocava no repeat do rádio e deixava tocando por horas incessantes. (Acho que consegui enlouquecer alguém com aquela música).E eu não quero sair de casa, quero ficar só recordando dessa minha vidinha corrida e cheinha de momentos bons, já que ultimamente só tenho passado por situções estranhas. Não quero mais recordações dessas coisinhas estranhas, só quero esquecer, tudo. Passar uma borracha. Um corretivo bem grosso, vencido de preferência.

Só quero sentir saudade das placas de poeira que se acumulam facilmente debaixo da minha cama.
Saudade da margarida que toma sol todas as manhãs na minha janela.
Saudade dos livros da minhas escrivaninha,
Das minhas canetas azuis,
Das minhas lapiseiras zero-cinco,
Do meu dicionário de francês,
Saudade do meu bom humor
Saudade das meias e roupas que iam se acumulando por semanas a fio num canto qualquer do meu quarto.
Saudade dos meus cds originais com encartes originais e com letrinhas de músicas em inglês pra eu ler.
Saudade da minha amiga que me deixava chorar nos braços dela, e das marcas de batom que ela deixava no meu pescoço.
Saudade da humildade de sempre querer aprender mais, de querer saber tudo, sempre ativo e atento.

E quando a gente é jovem a gente pensa como um... suicida.
Fazendo o que nos dá na telha fazer, bebendo a quantidade que nosso organismo aguenta, comendo porcaria gordurosa e cheia de colesterol, fumando baseado, tragando Luckie Strike, tomando "doce" e ficando doidão a noite toda. Tudo nessa época é feito SEM CAUSAS... E SEM CONSEQÜÊNCIAS.
E ainda me perguntam por que eu sinto saudade das coisas que eu fazia antigamente.
E entre os meus queixumes tem gente que não consegue entender por que a gente virá alcóolatra, drogado, doente. Porra. Visão positivista da vida é o escambau. A gente cresce e fica bobo. Amadurece e deixa que as nossas atitudes e decisões tomem conta da gente. Responsabilidade é o caralho. Eu quero é me divertir...
E mesmo assim, com toda essa vontade de mudar as coisas, as minhas coisas, eu não consigo. Elas parecem imutáveis. E alguns dizem. As mudanças partem de você, basta você querer, você é o seu Deus e você pode tudo o que você quiser. Cala a boca, tô afim de ouvir ladainha não. Eu não tenho dinheiro, eu não tenho saco pra ouvir as pessoas, eu não tenho ânimo pra ler coisas...
E tudo isso passa a fazer parte daquela lista de coisinhas que a gente não entende, ou sabe e finge que não entende. Lista das coisinhas incovenientes.
São como as minhas margaridas suicidas que todas as manhãs tomavam sol na janela do meu quarto, lindas, brancas... mas um dia elas se cansaram, e se chocaram brutalmente contra o chão, e elas não resistiram a queda.
O meu final será menos trágico. Eu simplesmente vou calçar o meu All Star e me levantar dessa cama. Porra, tava pensando o que? Achou que tu ia ficar livre de mim assim?
Foi mal, mais sorte da próxima vez.

E mesmo depois dessa lorota toda...
A música saudosa tá tocando...
E a poeira acumulando...
E o monte de meias está crescendo...
E a lista de compras está completa
E tem cd novinho e original pra ouvir...
E tem aspirina pra gripe e chá quentinho no fogão pra melhorar a dor de garganta...
E tem esperança de melhora
E tem desafeto novamente
E vontade de conhecer meninas bonitinhas pra ver filme e comer pipoca juntinhos...
E vontade de respirar... (mas o catarro tá obstruindo as fossas nasais...)
E carência de mim...
Ahhhh como é bom sentir esse cheirinho de ontem no mundo de hoje!


 


Postado por Sr. R. at 5:25 PM  

 


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